Aprendizes e Companheiros: espelho da hierarquia social?

01/02/2018 23:45

Atualmente a Maçonaria Tupiniquim infelizmente tem um pensamento corrente de que duas de suas três classes de maçons não tem direito a fala e muito menos a escrita (no caso Aprendizes e Companheiros). Acredito que este pensamento tenha raiz em um modelo antiquado de hierarquia, e para tratar o assunto traremos hoje um texto "num" formato nunca visto antes por essa área desolada da internet. Para tanto eu contei com a ajuda de um Grande Irmão que trabalha e vive na terra da Rainha.

O Menino Edward Yudenich foi Maestro aos sete anos de idade. Essa imagem tem o objetivo de retratar que alguém mais novo ou com pouco em determinado ofício tem o seu valor e deve ser respeitado pelo seu trabalho.

No famoso grupo de estudos sobre "ciências maçônicas" (me superei aqui) Ritos e Rituais eu levantei uma pergunta direcionada ao Irmão Felipe Côrte Real de como os ingleses tratam os trabalhos (textos, monografias, artigos, peças de arquitetura e etc) que são confeccionados por irmãos aprendizes e companheiros, confira agora a pergunta e a resposta na íntegra.

Pergunta

Algo interessante a perguntar para você sobre a maçonaria na Inglaterra.

Aqui no Brasil infelizmente há uma cultura de não se levar a sério o estudo e artigos de Irmãos aprendizes e companheiros. O que na opinião de todo mundo aqui (acredito) é uma grande idiotice.

Enquanto peças extraídas do livro de Rizzardo são altamente elogiadas, peças com pesquisas dignas de cunho acadêmico são sumariamente descartadas e ainda ganham a alcunha de "você pesquisou na internet, basta o seu ritual".

Quando você confeccionou esse artigo (“Protect the integrity”: regularidade no discurso das relações maçônicas internacionais entre Brasil e Inglaterra (1880-2000)) o mano era companheiro, porém o mano é doutorando em História e como o tal sabe fazer pesquisa e escrever sobre com maestria. Como é essa percepção na Inglaterra?

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Resposta

Meu irmão Cloves, a tua pergunta me é tão cara e possui tantas camadas que merece uma resposta de igual complexidade, por isso escolho esta carta aberta ao nosso grupo para respondê-la.

Sou DeMolay desde 2000 e maçom desde 2012. Escolhi entrar tardiamente na maçonaria, não sendo, felizmente, por falta de convite. Então, como os irmãos DeMolays podem confirmar, tenho conhecimento dos maçons brasileiros não somente a partir de 2012. Logo, eu sabia muito bem no que estava me metendo.

A cultura de desmerecer aprendizes e companheiros, a meu ver, está ligada ao pernicioso "classismo" que podemos testemunhar no dia a dia. O irmão sabe bem que a cultura escravocrata e patriarcal está incrustada em nossa sociedade. Como a maçonaria brasileira não recruta seus membros em Marte, ou na Suíça, acabamos por ter nas lojas, e nas obediências, um microcosmo que retrata o Brasil.

Ser “superior” e destratar ou desmerecer “quem está abaixo” é tão natural para a nossa cultura quanto falar sobre o tempo aqui na Inglaterra. Em muitas lojas, a relação entre aprendizes, companheiros e mestres reflete isso. Então, claro, como o irmão bem ressaltou, a maioria dos maçons que merecem essa alcunha irá concordar que isso é, no mínimo, uma subversão do espírito que anima a maçonaria.

O Rizzardo da Camino, entre outros escritores “maçônicos”, merece um artigo crítico (e me refiro aqui ao sentido acadêmico da palavra) sobre suas obras. Acho que tais escritores possuem grande importância, porém trazem uma interpretação demasiado mística da maçonaria. Tal interpretação não me agrada como maçom e tampouco como acadêmico.

Essa mistificação, ou “beatificação”, promovida por parte dos maçons brasileiros pode ser vista na postura sectária com a qual as potências e os ritos são vistos e comparados. A prova de que isso é estrutural e estrutrante da nossa sociedade é que nas universidades brasileiras a mesma coisa acontece: se você é da linha de pesquisa X, deve se opor sistematicamente aos fulaninhos da linha de pesquisa Y. Claro que isso é suavizado pelo nosso “deixa disso” ou como escreveu Sérgio Buarque de Holanda,  pela cultura do homem cordial. Porém, no fim do dia, os ritos e as potências continuam sendo “igrejinhas”, com seus teólogos, padres e devotos.

É normal que muitos maçons brasileiros enalteçam tais interpertações mitificadoras pois estas vão ao encontro da nossa interpretação religiosa do mundo. Basta observarmos quais assuntos são “tabu” ou “polêmicos” no Brasil, todos eles são assim vistos por causarem desconforto em relação a valores que são, noves fora, religiosos. É daí também que vem parte da desconfiança quanto ao conhecimento acadêmico, pois este sempre terá por missão fazer uma leitura crítica, ou à contrapêlo, da realidade, seja esta leitura partindo da Física, da Sociologia, da Química ou da História.

Essa resistência ao uso de trabalhos acadêmicos também está ligada a um receio de subversão da ordem social. Há uma certa cota para self-made man no Brasil. A trajetória deste prosélito deve ser balizada por uma série de pontos de vista específicos para que este se ajuste perfeitamente entre seus novos pares, de modo a não causar nenhuma “desordem” ou “desconforto”. Não é a toa que a hierarquização dos saberes funciona em nosso país como em nenhum outro, respeitamos as profissões que estavam disponíveis durante o Império (Direito, Medicina e Engenharia), sendo as outras vistas com desdém e/ou suspeição. Algumas dessas profissões fora do eixo ascendem a uma categoria melhor por serem bem pagas. O “tu és o quanto tu ganhas” ou o “teu contracheque designa o quanto sabes” são dois exemplos de regras veladas da nossa sociedade que no âmbito das lojas, muitas vezes, podem ser percebidas.

Se somente o ritual basta para fazer uma peça de arquitetura, significa que está sendo pedida uma eisegese do que ali está escrito. Isso implica, na prática, supor que o ritual é ahistórico, que ninguém o escreveu e se o fez, o fez em tempos “imemoriais”. Creio que nenhum maçom sério crê nisso. Se crê, está transformando a maçonaria em religião ao exigir um credo ut intelligam (eu creio para que possa entender).

A minha pesquisa sobre a maçonaria é feita como acadêmico, sempre. Tenho peças de arquitetura escritas para a minha loja no Brasil e somente essas são feitas com um cunho maçônico. Então o fato de ser aprendiz, companheiro, mestre ou “past GADU” não faz a mínima diferença quando se estuda a maçonaria academicamente. Inclusive, alguns dos melhores acadêmicos na área não são maçons. Isso porque o segredo da maçonaria (a meu ver e na visão de outros acadêmicos mais afamados) está na performance do ritual e na experiência subjetiva de cada maçom. Fora isso, tudo está publicado e acessível, principalmente se você for um pesquisador profissional.

Na Inglaterra a maçonaria é uma fraternidade com um caráter muito semelhante aos clubs, claro, com suas trezentas especificidades. A maçonaria é vista aqui, por grande parte da população, como algo secreto, oculto e etc. Porém, a própria UGLE está se encarregando de desmistificar esta visão, como o irmão já deve ter percebido através de séries para a televisão como Inside the Freemasons. Claro que o meu “eu” adolescente, DeMolay empolgado e candidato à candidato à maçom, não gosta muito dessa ideia, pois ele começou a gostar disso pelo caráter de mistério. Porém o adulto, maçom e acadêmico, vê com bons olhos essa iniciativa, pois não há como a maçonaria continuar relevante no século XXI sem que haja a promoção de mudanças substanciais. Do contrário, viraremos, em questão de anos, um grupo folclórico. Alguns diriam que já somos.

Pessoalmente, a grande diferença aqui nessa relação entre maçonaria e academia é o fato de ser respeitado por ser um doutorando (PhD Candidate). E não digo somente entre os maçons, mas socialmente. A questão de as pessoas entenderem que você está abdicando, sim, de uma série de coisas para colocar mais um tijolinho na grande obra que é a construção do conhecimento e que esta é a sua profissão, é algo inenarrável. Nada de perguntas como “Você SÓ estuda?”, a qual eu sempre quero responder “Não, eu também consigo dar um mortal para trás enquanto canto o Hino da Bulgária”.

A UGLE me trata com a maior deferência, já que estou me especilizando em uma de suas coleções. O respeito dos funcionários e das diretorias é ímpar. Me identifiquei como maçom para dois dos irmãos que lá trabalham, mas depois de meses e totalmente por acaso. Grande parte dos funcionários da Library and Museum of Freemasonry não são maçons e podes ter certeza mano Cloves, eles colocam qualquer “sabão” (aquele que sabe tudo, segundo o grande Maurício de Sousa) no bolso quando o assunto é maçonaria.

O que me enche de esperança é essa geração nova, que em certa medida também é a nossa, que está vindo cheia de perguntas e curiosidade. Embora tenhamos de reconhecer os vários irmãos que por muito tempo lutaram e lutam para que a maçonaria seja algo mais que aventais e medalhinhas. “Porque sim”, ou “porque sempre foi assim” ou “porque fulano disse”, nunca serão respostas para nada, muito menos para a maçonaria. Na minha opinião, como maçom, o que falta em parte da maçonaria brasileira é autocrítica, o famoso “se enxergar”. Falamos tanto em perfeição, temos nomes tão pomposos para tudo que, eventualmente, acreditamos que estamos num grupo mega especial que em nada reflete ou promove a situação extra-loja. Poderia falar num tom hierático que o que falta é humildade e bla bla bla, porém creio que só falta bom senso e coerência, mesmo. A maioria das discussões que leio ou ouço são incoerentes ao ponto da esquizofrenia, sem nenhuma definição conceitual clara e principalmente, com modelos de pesquisa ou de formulação de problema dignas do século XIX (ou nem isso).

Eu sei que me alonguei mano Cloves, mas as suas perguntas são sempre inteligentes e cheias de nuances, então resolvi tomar um tempo para responder adequadamente ao menos uma.

Um tríplice e fraterno abraço do seu irmão,

Felipe Côrte Real de Camargo

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Tópico: Aprendizes e Companheiros: espelho da hierarquia social?

  • Data: 22/05/2018 De: Orlando de Oliveira Reis

    Assunto: Aprendizes e Companheiros - Espelhos da Hierarquia Social.

    Queridos Irmãos, muito oportuno o artigo e muito pertinente os comentários até então postados. Vivemos uma era em que é preciso INOVAR sem perder nem ferir a originalidade da Ordem Maçônica. Nossa Grande Loja de Santa Catarina, desde o ano 2000, INOVOU ao implantar um Sistema Instrucional Complementar às Instruções Clássicas, que continuam a ser ministradas pelo método tradicional, ou seja, o expositivo dogmático-catequético, mas que receberam complementações que permitem ao instruendo (Ap. Comp ou MM) alargar e aprofundar seu entendimento. O objetivo é desenvolver ampliadamente o pensamento filosófico maçônico, de tal sorte que seja possível: 1- Estruturar, inter-relacionar e assimilar conceitos, noções, doutrinas e princípios maçônicos; 2- Explicar e aplicar corretamente a terminologia simbólica maçônica; 3- Identificar, interpretar e associar os diferentes símbolos maçônicos e aplicar os princípios e doutrinas maçônicas aos casos ou situações concretas individuais, familiares, comunitárias e no próprio âmbito interno da Maçonaria. A aprendizagem do conteúdo desses complementos é aferida em debates abertos com toda a Loja, onde os Aprendizes, os Companheiros e os Mestres mesclam seus comentários para aproximar o máximo do foco desejado pelo assunto abordado. A massa de informações é bastante expressiva, o Grau de Aprendiz comporta em torno de 23 fascículos, Comp. 14 e Mestre 9. Durantes quase duas décadas os resultados tem se mostrado amplamente favoráveis. A Potência que desejar receber um exemplar, uma amostra é só pedir via email exterior@mrgls.corg.br.

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  • Data: 20/03/2018 De: Vicente Mauro Neto

    Assunto: Aprendizes e companheiros

    Não vejo discriminação. Vejo apenas uma contingência de tempo e de conhecimento do básico. Não posso e não devo crer que um aprendiz que ingresse na ordem hoje tenha a mesma padronização de "época" quando comparado com o meu ingresso há mais de 30 anos atrás. O mundo mudou. Entretanto existe uma adequação e tempo para tudo na vida. O Aprendiz necessita no mínimo conhecer os métodos e um mínimo de conteúdo para participar. Como uma escola de alfabetização. O camarada que se dispõe a antecipar seus conhecimentos antes do tempo devido, por maior mérito que tenha torná-se um "chato". Devemos considerar também que a grande maioria dos trabalhos de Loja são feitos por aprendizes e companheiros. E por último creio que a Lenda de Hiram explica muito bem que o conhecimento deve ser dado a seu tempo......

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  • Data: 21/03/2018 De: Rodrigo de Oliveira Menezes

    Assunto: Re:Aprendizes e companheiros

    Vicente, esse é bem o texto protecionista que o artigo rebate. Primeiro que vivência não é experiência, não importa se um iniciado tem 20, 30 ou 50 anos de Ordem, ele pode ter passado por experiências sem realmente as experimentar. São essas pessoas que hoje dão as caras se mostrando extremamente vaidosas, não permitindo que essa garotada nova tome conta de uma Loja por "inexperiência" quando na realidade, em qualquer debate o ancião fica sem saber responder a questões simples.

    Por infelicidade brasileira nossos Mestres são em sua grande maioria ruins, despreparados, despreocupados e desinteressados. Assim, os trabalhos em Loja ficam quase que exclusivamente a cargo de Aprendizes e Companheiros porque a eles se pode obrigar alguma coisa, e olha lá. São esses Mestres que veem sua Loja morrer no marasmo de Aprendizes e Companheiros serem os donos do único estudo e são eles que precisam entender que ser Mestre é ter aprendido e saber ensinar, então ensinem.

    Quanto a chamar um camarada de chato, vai do perfil da Loja. Se a Loja só quer janta e fraternidade, ele vai ser chato tendo antecipado seus estudos ou não. A antecipação dos estudos é prejudicial só a ele, não ao seu ambiente, é ele que vai passar por muito texto sem entender. No caso do Felipe, o trabalho em sí é basicamente histórico, acadêmico, não vejo nada que lhe desabone.

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