Benedita, A Filha dos Bodes (Parte 3)

18/01/2017 14:53

Nas partes anteriores desse conto... Benedita, uma escrava ainda na infância foge de seu feitor para não ser obrigada a trabalhar doente, e neste interim acaba conseguindo abrigo em uma Loja Maçônica chamada Lealdade e Brio onde Umbelino, o cobridor, se propõe a protegê-la, mas para isso deverá primeiro convencer os seus Irmãos, já que houve uma indisposição com o Martim que logo foi resolvida graças ao pulso firme do nosso velho herói, então o cobridor pediu para que colocassem a loja em recreação a fim de apresentar os fatos para poderem tomar uma decisão a respeito do assunto.

Se você não leu ou quer recapitular,

Acesse aqui a primeira parte:Benedita, A Filha dos Bodes

Acesse aqui a segunda parte:Benedita, A Filha dos Bodes (Parte 2)

 

BENEDITA, A FILHA DOS BODES (PARTE 3)

Por Cloves Gregorio

- Meu Venerável Irmão Bento Castro e amados Irmãos. Venho informar que essa doce criança – Disse Umbelino enquanto comprimia a menina junto ao seu corpo com o braço esquerdo, e continuou – veio a porta de nossa Augusta Loja nos pedir ajudar, pois tem um feitor a sua caça pronta a açoita-la, então depois de trancar a porta devidamente a trouxe aqui nessa sublime assembleia para discutirmos  como podemos ajuda-la.

Bento Castro coçava a cicatriz em seu queixo como se lembrasse de algo, pois seu olhar estava perdido, então suspirou profundo e falou:

- Meus Irmãos, a escravidão é um terrível mal que infelizmente ainda assola nossa pátria. É certo que tomaremos alguma atitude, mas gostaria de saber a opinião dos senhores sobre o assunto.

- PELA ORDEM VENERÁVEL! – Irrompeu uma voz potente das sombras. Um homem dava um pesado passo a frente e a luz pálida do castiçal do tablado que estava mais a frente  passou a iluminar seu rosto branco sem marcas de expressão, tinha um cabelo espesso e grisalho que emendavam as suas costeletas e cavanhaque bem feitos. Então continuou falar com menos força – Para falarmos sobre a... – Nesse momento o homem ponderou as palavras e continuou – menina, não seria justo que a retirássemos do templo para conversarmos mais a vontade?

- Meu Irmão Fernão, eu gostaria de conversar esse assunto na frente da maior interessada que é a menina, justamente para ver que tem coragem de olhar nos olhos de uma criança e dizer que vai joga-la aos lobos – Respondeu Bento castro com certa energia – Porém reconheço que existem leis e regulamentos, então proponho que conversemos e decidimos agora e depois sacramentamos a portas fechadas para todos os efeitos legais. Todos concordam?

Doze homens concordaram positivamente, então um homem se levantou e após contar todas as opiniões disse a Bento Castro que havia sido aprovada a ideia. Houve um farfalhar geral de ideias, desde um levante armado até pressionar o juiz interino da cidade a dar causa ganha a favor da jovem escrava. Em geral a maioria das propostas era em benefício da garota, até que a voz de Fernão mais uma vez interrompeu a todos. Disse ele:

- Meus Irmãos, me desculpem! Mas vocês estão esquecendo-se do direito a propriedade?

Segundos de silencio tomaram o lugar, nesse instante Benedita engoliu a seco. Umbelino mais uma vez se enfurecia e estava pronto para explodir quando Bento Castro vociferou de seu altar.

- DIREITO A PROPRIEDADE? Esquece-se de quem eu sou Fernão? Um juiz licenciado por isso! – disse bem exasperado apontando para cicatriz em seu queixo – Ou por um acaso não se lembra de que isso foi um tiro na cara por eu despachar em desfavor do coronel Miranda, concedendo assim liberdade ao menino Matias?

Todos lembraram o terrível ocorrido de dois anos atrás, quando coincidentemente depois de Bento Castro favorecer um escravo no lugar de um coronel, sofreu um atentado com um tiro no rosto que por sorte não ceifou sua vida. Não houve provas para prender o Coronel Mirando pelo atentado contra o jovem juiz abolicionista, o que ocorreu foi que seus superiores o licenciaram de imediato e mesmo agora, já se considerando saudável para tomar seu lugar de direito, eles não o concederam. Então o mantêm no cargo, recebendo, mas não em exercício.

- Meu venerável, eu não quis ofende-lo ou dizer que o atentado contra você foi justo, mas devemos seguir a lei, mesmo que injustas – explicou Fernão mais uma vez medindo as palavras.

Todos estavam muito tensos, quando Bento Castro voltou a falar:

- Fernão, acredita mesmo que um pedaço de papel dá direito de um homem ter posse de outro? Olhe pra essa menina e diga a ela que é o seu destino continuar tendo “dono”. Ou diga que para o Irmão Zé Maria que sua esposa Bertoleza que é orgulhosa de suas origens que ela seria posse de outro se ele não tivesse comprado a alforria dela, ou para o Irmão Luiz Gama que tem sorte de ter nascido de pais alforriados, pois se não seria escravo e não poderia estar em nossas colunas – Suspirou então continuou – Se acredita que um homem possa ser escravo de outro, não sei o que pensar de ti.

Zé Maria que até então estava calado desceu de seu altar mais a direita e a frente e ficou de pé em apoio às palavras de Bento Castro. Este era um português de 1,90 m, muito branco e de cabelo e bigodes ruivos, deveria pesar uns 120 kg, mas o que mais chamava atenção era seu olhar de ternura para com a pequena garota.

- Meu Venerável e amigo Bento, mais uma vez pondero. Nada do que foi explanado é justo e todos sabem que um dos grandes propósitos desta loja é a abolição da escravidão, mas não podemos esquecer o âmbito legal da questão – Continuou – O senhor já não está mais na cadeira de juiz e o homem que está lá, temos quase certeza que trabalha em prol dos cafeicultores. Por isso peço parcimônia ao tomarmos uma atitude neste caso.

A loja foi tomada por cochichos e discussão em torno do assunto, pois ambos estavam certos. Não era admissível que houvesse escravidão, mas também se inferissem contra a Lei, a oficina poderia sofre sanções sendo impedida futuramente de trazer alívio aos próximos que precisassem.

- Todos trouxeram suas canecas e pratos? – perguntou Umbelino ainda com o braço envolto na menina, enquanto todos afirmaram que sim, então continuou – Aproveitando que você está em pé irmão Zé, poderia pegar o bule de café e servir a todos a fim de que acalmemos os ânimos?

O Irmão Zé Maria respondeu afirmativamente e foi fazer o que o velho cobridor pediu. Então voltou meio atrapalhado sem jeito de pegar o bule quente junto com o pano de prato e uma lâmpada a óleo. Via-se claramente que o Irmão bonachão queimara o dedo, pois fazia uma careta de dor tentando sorrir ao mesmo tempo para disfarçar a trapalhada. Serviu primeiro a Umbelino e a menina. Benedita pensou “Esse Zé tem bochechas rosadas e simpáticas, deve ser aconchegante abraça-lo”, mas continuou nos braços de seu protetor. Depois serviu a todos com muita alegria até voltar ao seu altar e colocar café para ele mesmo. Todos depois de uma bela golada de café voltaram a conversar sobre o assunto, então chegaram a conclusão de comprar a alforria da pequena escrava, mas existia um pequeno problema que surgiu após a resolução. O que seria da menina no mundo? Com quem ela ficaria? Igreja? Orfanato? De repente Zé Maria se levanta e diz:

- Eu gostaria muito de ficar com a pequena sob a minha tutela – Então continuou – Eu e Bertoleza estamos tentando um filho há muito tempo, mas infelizmente o Grande Arquiteto ainda não nos agraciou com uma criança.

- Ou o Grande Arquiteto traçou uma linha para que você esperasse até a chegada da pequena Benedita – Disse o sábio cobridor.

- Tem razão meu grande cobridor – respondeu Zé Maria a Umbelino, e agora voltado a menina perguntou a ela – E você, deseja ter o conforto de um lar? Não somos donos de muitas posses, mas carinho a comida não faltará.

A menina estava envergonhada, mas estava feliz. Respondeu com uma afirmativa, mas não conseguia tirar os olhos do chão.

- Creio que está tudo resolvido então, compraremos a alforria desta linda menina – Disse Bento Castro – Então, agora sim vamos pedir Umbelino para que acompanhe a menina no átrio enquanto acertamos os tramites legal na loja.

Quando Umbelino ia conduzir a menina, a mesma involuntariamente travou os pés e com muita dificuldade e com a voz quase sumindo disse um “obrigado”. Zé Maria secava muito rápido uma lágrima que escorreu de seu rosto.

- Não agradeça menina. O Grande Arquiteto não nos colocou aqui dentro para engrandecer nossos egos, nem para dar graus, muito menos títulos e medalhas – Disse Bento Castro – Ele nos colocou aqui para sermos juntos e levarmos afago aos que menos tem nessa sociedade. Já já estaremos aí fora para jantar convosco.

Umbelino acompanhou a menina então para o pequeno cômodo que estavam antes. Disse para ela se sentar enquanto esquentava a sopa no fogão de ferro fundido para alimentar os seus irmãos. O vento assobiava por debaixo da porta e a chuva parecia não dar trégua. Umbelino colocou a mão na testa da menina e percebeu que ela ainda estava com febre, mas a temperatura tinha diminuído bastante. O que era bom.

Não demorou meia hora para que os irmãos saíssem já com seus pratos na mão. Aparentemente já era um acordo firmado, Umbelino trazia a sopa feita pela cunhada e os irmãos traziam seus pratos e canecas que em sua maioria eram de metal, pois geralmente quando traziam de vidro voltavam aos pedaços para casa e as cunhadas ficavam furiosas. Todos caçaram um canto para comer. Uns se arrumaram sentados na escada em “L”, outros buscaram cadeiras dentro do templo e ainda tinha os que se ajeitaram no chão. Benedita estava sentada na rustica cadeira de madeira ao lado do fogareiro enquanto comia a sopa com gosto de chegar a lamber os beiços. Quando já estava sendo servida pela segunda vez por Zé Maria que estava sustentando uma ótima conversa sobre pássaros bonitos com a menina quando todos ouviram batidas violentas na porta e em seguida uma voz gritando:

- Benedita Saia, Sabemos que você está aí! A Senhora do meio da rua disse que está aí!

Uns três Irmãos falaram baixo “Veia fofoqueira fia de uma égua!”

Benedita deixou o prato de  sopa cair no chão.

Continua...

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